Apanhadores de flores sempre-vivas recebem reconhecimento internacional como o primeiro
Patrimônio Agrícola Mundial do Brasil

O sistema de agricultura tradicional da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, onde há o manejo e coleta de sempre-vivas,
passará a integrar a lista de 58 patrimônios agrícolas mundiais.

Editado/publicado em 12/03/20


Foto: Valda Nogueira

O tradicional sistema agrícola dos apanhadores de sempre-vivas da Serra do Espinhaço (MG) recebeu, na manhã desta quarta-feira (11), o reconhecimento internacional denominado Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (SIPAM) concedido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

O anúncio de reconhecimento do primeiro Patrimônio Agrícola Mundial brasileiro pela FAO ocorreu na sede do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), com a presença da primeira-dama Michelle Bolsonaro, juntamente com a ministra Tereza Cristina e o representante da FAO no Brasil, Rafael Zavala. Esta é a primeira visita de Michelle Bolsonaro ao Mapa.

Essa certificação reconhece patrimônios agrícolas desenvolvidos por povos e comunidades tradicionais em diversas partes do mundo.

A candidatura do projeto brasileiro foi encabeçada pelo Ministério da Agricultura, que coordenou, por meio da Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo, o encaminhamento do dossiê e do Plano de Conservação Dinâmica do Sistema, em conjunto com o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e a FAO, para que o Sistema de Agricultura Tradicional da Serra do Espinhaço concorresse ao título de Patrimônio Agrícola Mundial, o primeiro dessa categoria conquistado pelo Brasil.

Com o reconhecimento das comunidades apanhadores de flores, o sistema de Minas Gerais passará a ser o quarto SIPAM da América Latina e o 59º patrimônio agrícola, envolvendo 22 países. Os outros três latino-americanos são o corredor Cuzco-Puno (Peru); o arquipélago de Chiloé (Chile) e o sistema de Chinampa no México. São sistemas ricos em biodiversidade agrícola e vida selvagem e importantes fontes de conhecimento indígena e culturas ancestrais.

A entrega da certificação aconteceu nesta quarta-feira (11/3), em Brasília, com a presença de representantes dos apanhadores de flores e autoridades. O objetivo da FAO, com o selo, é valorizar populações que preservam métodos seculares de manejo da terra e mantêm, dentro de seu habitat, relações sustentáveis com o meio ambiente.

“Hoje, nosso país está sendo reconhecido pela primeira vez com um patrimônio da agricultura mundial. Esse patrimônio foi construído nas montanhas de Minas. São práticas e conhecimentos únicos. Vocês são os guardiões da biodiversidade", destaca a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina.

Quem dedicou toda vida à atividade garante que a conquista é motivo de orgulho. É o caso de Jovita Maria Corrêa, 62, que aprendeu o ofício com os pais e ensinou tudo aos filhos. Ela espera, agora, que as próximas gerações mantenham a tradição. “A panha das flores sempre-vivas me ajudou na criação dos meus 11 filhos. Espero que também ajude os meus netos”, diz.

Para Maria de Fátima Alves, uma das coordenadoras da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (Codecex), o reconhecimento valoriza o esforço de famílias inteiras da região do Espinhaço. "A gente já nasce fazendo isso e vamos muito cedo para o campo, junto com a família. Eu mesma comecei com 8 anos. É fantástico ver essa premiação, saber que esse processo agora tem importância para Minas, para o Brasil e o para o mundo", comemora.


Divulgação


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Orgulho

O sistema agrícola da Serra do Espinhaço, praticado em seis comunidades nos municípios de Diamantina, Buenópolis e Presidente Kubitscheck formadas por camponesas e quilombolas, engloba a identidade cultural e a prática sociocultural de manejo e coleta das flores sempre-vivas, realizado há séculos naquela região.

Integrante dos apanhadores da sempre-vivas, Maria de Fátima Alves fala do sentimento de orgulho e vitória, após anos de luta e persistência pelo reconhecimento do trabalho. “Essa decisão é muito importante, pois vai contribuir para manter o sistema vivo e dar maior força para a continuidade do trabalho”, avalia Tatinha como é conhecida. Ela faz parte da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas – Apanhadoras de Flores Sempre-vivas (Codecex), que acaba de completar 10 anos de atuação.

Filha de pais de comunidades quilombolas, ela é um exemplo de que, de geração em geração, integrantes dessas comunidades transmitem seus conhecimentos no manejo das plantas e das atividades agrícolas, pastoris e extrativistas, cumprindo um importante papel de guardiãs da natureza. Ao mesmo tempo, garantem a autonomia alimentar por meio da produção agrícola de alimentos, como plantio de hortaliças, mandioca, arroz, entre outras culturas, e a criação de animais, com o pastoreio de gado curraleiro.

É um conjunto de práticas de convivência harmônica com o ambiente, mediante a preservação das tradições típicas da identidade cultural dessas comunidades, características que possibilitaram propor a candidatura do sistema mineiro à FAO. Com o reconhecimento, há agora, segundo Tatinha, as ações do plano de conservação a serem desenvolvidas, o que irá contribuir para dar sustentação à continuidade do trabalho de preservação, transmissão dos conhecimentos e acesso a novos mercados.


Foto: João Roberto

Biodiversidade

As seis comunidades que tiveram seus sistemas agrícolas reconhecidas pela FAO são Lavras, Pé-de-Serra, Macacos e as comunidades quilombolas de Raiz, Mata dos Crioulos e Vargem do Inhaí – estão numa área de aproximadamente 100 mil hectares e chegam a manejar mais de 400 espécies de plantas já catalogadas, incluindo as alimentares e as medicinais, cujos conhecimentos e práticas únicas são desenvolvidas ao longo de gerações para manter os recursos genéticos e melhorar a agrobiodiversidade.

Em relação às sempre-vivas - termo popularizado em virtude das características das flores, que depois de colhidas e secas, conservam sua forma e coloração - há cerca de 90 espécies manejadas de flores, com diversos formatos e cores.

No período de abril a outubro, apanhadores e suas famílias sobem a serra para a coleta, em áreas de campos rupestres do Cerrado, conhecida como Savana brasileira, que ocorrem a 1,4 mil metros de altitude. É nesses campos na Serra do Espinhaço que se encontram 80% das espécies de flores sempre-vivas no Brasil, de acordo com dados do dossiê enviado à FAO.

Os apanhadores permanecem por lá durante semanas. Para eles, é um momento de encontro entre as comunidades, promovendo a socialização. Além das flores são também coletados diversos tipos de folhas, frutos secos dentre outros produtos ornamentais, a depender da época do ano.

Comunidades guardiãs

Essas comunidades são consideradas guardiãs da biodiversidade, tanto de sementes agrícolas como de conhecimentos tradicionais associados às espécies silvestres conhecidas como sempre-vivas e, ainda, de outras plantas importantes na dieta e na medicina tradicional quilombola. Ainda hoje preservam modo de vida tradicional de seus descendentes. São cerca de 1,5 mil pessoas, descendentes de indígenas, europeus e africanos que viveram no Brasil colonial.

A peculiaridade da região é uma combinação de atividades agrícolas, de pastoreio e extrativismo que formam um sistema de manejo dinâmico da paisagem. Conhecimentos continuam sendo transmitidos entre gerações; as sementes são trocadas e o seu compartilhamento é conduzido pelas comunidades, contribuindo assim para conservar o recurso genético vegetal.

O manejo é baseado no conhecimento tradicional, estritamente relacionado aos ciclos naturais das espécies e à intensidade de coleta, a fim de garantir a renovação e manutenção de cada espécie.

De acordo com Codecex, a venda das flores é a principal fonte de geração de renda para as famílias, sendo que algumas delas, dos municípios de Presidente Kubitschek e Diamantina, já comercializam para os Programas de Compras Públicas (Programa Nacional de Alimentação Escolar –PNAE e o Programa de Aquisição de Alimentos - PAA).

Do total produzido, as exportações ultrapassam 80% das espécies ornamentais comercializadas (flores, botões, ramagens, frutos secos), sendo que 55% destas são as sempre-vivas ou margaridinhas.

Os principais importadores são os Estados Unidos, Países Baixos, Espanha e Itália (absorvem quase 90% das exportações). No Brasil, o destino comercial das flores é, principalmente, São Paulo, seguido por Minas Gerais, Paraná, Distrito federal e Ceará, segundo a comissão.

Além das flores e outras espécies ornamentais, a renda é proveniente também do artesanato, comercialização de leite e queijo, produtos da agroindústria caseira (farinha de mandioca, de milho, rapadura, frutas e hortaliças (pequenas quantidades). A maioria da produção é para consumo das famílias.

Atualmente, em 15 municípios há comunidades apanhadores de flores na Serra do espinhaço Meridional. A Codecex atua diretamente em oito e há demanda de mais quatro municípios.


Foto: João Roberto

Sistemas agrícolas ancestrais

Criado em 2002 pela FAO, o SIPAM (Globally Important Agricultural Heritage System – GIAHS, sigla em inglês) combina biodiversidade agrícola, ecossistemas resilientes e um patrimônio cultural valioso. São sistemas agrícolas ancestrais que constituem a base para inovações e tecnologias agrícolas contemporâneas e futuras. Sua diversidade cultural, ecológica e agrícola ainda é evidente em muitas partes do mundo, mantida como sistemas únicos de agricultura.

Para que o Sistema de Agricultura Tradicional da Serra do Espinhaço concorresse ao reconhecimento, ainda em 2018, as comunidades se organizaram e, com o apoio da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (Codecex), prepararam o dossiê de candidatura com o apoio de universidades parceiras.

Além disso, elaboraram o Plano de Conservação Dinâmica do Sistema Agrícola, em parceria com secretarias do governo de Minas Gerais e instituições públicas do estado como o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater), além das prefeituras de Diamantina, Presidente Kubitschek e Buenópolis. Estão previstas ações como de pesquisa e inovação, elaboração de maro legal e de políticas públicas.

O sistema brasileiro foi avaliado pelo comitê científico da FAO, passando por várias etapas seletivas que incluíram a análise do dossiê com dados históricos e a visita in loco dos especialistas das Nações Unidas.


Foto: Marcio Andrade

Com informações da FAO - Codecex - MAPA - Agência Minas


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