A MEDIDA DO AMOR É AMAR SEM MEDIDAS

Editado e Publicado em 21-08-19
artigo de Antônio Russi


Autor: Antônio Russi

A sentença é de San Juan de La Cruz, fiel companheiro de Santa Teresa de Jesus, a santa de Ávila, doutora da Igreja, mística e escritora, primus inter pares, figura tão maiúscula quanto a de Cervantes, o autor do Dom Quixote. Se exagero, jus ao exagero, e louvado seja. Su nombre de batismo? Tereza Sánches de Cepeda y Ahumada, de nobilíssima família espanhola, século XVI, para vos servir.

Tanto tempo assim, para que escrever sobre figuras de um Passado tão distante, puro nevoeiro que já se não faz ao caso presente, pois outros sóis, que fulguram, hoje, mais solenes e mais bem postos, não mereceriam mais acatamento, senão matéria preferencial?

Primeiro, sempre haverá o que escrever – scribendi nullus finis, o mundo é vasto e sempre haverá lugares reservados às grandes figuras do passado, que o tempo só faz crescer e aparecer.É o caso de Tereza, da ordem das carmelitas descalças, fundadora e disciplinadora que não recuava diante de nada. Por vezes, a Inquisição tentou pespegar-lhe pelas ilhargas, mas não era uma protegida direta do Cristo? Quem a tanto se atreveria? Ah, pudera eu falar sobre esses encontros que ela descreve com a simplicidade e inocência das grandes almas puras! Não, não, agora reservo-me para dizer outras coisas tão expressivas, tão arrebatadoras que inda agora ponho dúvida sobre se serei capaz de ao menos aproximar-me do modo como se deve dizer.

Fé férrea. Dizia ela que a gente encontra Deus até no fundo de uma panela. Mística sim, a ponto de transfundir-se por momentos, talvez horas, com o incognoscível, na curva idéia do inconcebível. E levitava, pairando no ar, e as irmãs conventuais, sem compreender a origem do fenômeno, abraçavam-lhe as pernas, num esforço desesperado para que lhes não fugisse das mãos, atônitas, e evadisse deste largo mundo da matéria. Impossível? Ainda vivemos em estado larval, zupicando às cegas com o desconhecido.

Mística sim, insisto, mas também criatura viril,personalidade forte, sabia o que queria, e queria muito. Ah, a arte de escrever, como definir-lhe o estilo refinado e sutil, assim como quem fala e não sabe que está falando, não percebendo em si o alcance de tal argúcia, a acústica das palavras e das idéias, jorrando espontâneas e suaves. E desdizia de si, recriminava-se por qualquer atozinho cometido – “e muito era a minha sagacidade para qualquer coisa má”. Que de mananciais oferecem as suas obras para o estudioso da alma humana e das galas da linguagem! “Su estilo, diz Juan de Valera, su lenguaje, a los ojos desapasionados de La crítica más fria, es un milagro perpetuo y ascendente”. E o grande Menéndez y Pelayo, sempre mestre, não se poupa, não se economiza: - “no hay en el mundo prosa ni verso que basten a igualar , ni aun de lejos se acerquen, qualquiera de los capitulos de La Vida, autobiografia a ninguna semejante”. E outro, e outro não menos que Azorín:- “La vida de Tereza, escrita por ella misma , és El libro más hondo, más denso, más penetrantre que existe em ninguna literatura europea”.

Querem mais? Por agora, basta-nos isso. Sem perda de tempo despacho-me para outros ângulos, é preciso ver em que lugarejo da Espanha a grande reformadora de mosteiros viu a luz do dia. Nasceu num burgo assentado sobre declives frios da Serra de Guadarrama, cidade cercada de muralhas de granitos cinzentos, 12 metros de altura e 5 de espessura, reminiscência de uma longa e cruel refrega contra os mouros infiéis.

Não de granito o coração sensível de Tereza, a virgem seráfica, como a cognominou a Igreja. Em momentos de sossego, quando oportuno, fazia-se lhana e calma. A quem duvidava de si e de Deus, tinha conselhos sentenciosos:- “Não te perturbe, nada te espante.Deus só basta.”

Diz-se que a gente troca de sombra por volta dos quarenta, quando alma e corpo revezam o jeito de se compenetrar. Tereza tinha a vantagem do gênio; alcandorava-se, desaparecia de si, humana:

“Vivo ya fuera de mi, despues que muero de amor;/ porque vivo em el Señor,/ que me quizo para si. Cuando el corazón Le di/ puso em el nuestro lucro: QUE MUERO PORQUE NO MUERO.

Antônio Russi (Professor e Escritor) - Lavras - MG - novembro/2018.


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