O O U T R O

Editado e Publicado em 11-06-19
artigo de Antônio Russi


Autor: Antônio Russi

Senão um dia, volta da noite, me vi estirado na cama e ao meu lado um outro corpo , de costas, respirante, bem vivo.De onde...? Refuguei,todas as armas em mãos, num movimento brusco de autodefesa. A uma meia claridade, notei que o corpo de um homem era o que jazia ali, inconcebivelmente, inexplicavelmenter, absurdamente, contra todos os prognósticos. Mais alguns segundos e eu consegui repor-me nos meus próprios eixos , são e consciente, afastando qualquer idéia de sonho ou pesadelo. Era de horrir-me os pelos; firmei a vista e fixei os olhos na figura. Pareceu-me adormecido.

Baixei mais a cabeça para fixar-lhe o rosto e, a uma tira de luz coada através da janela, distingui, claramente, o meu próprio rosto. Diz-se que a gente troca de sombra por volta dos quarenta, quando alma e corpo se revezam o jeito de se compenetrar. Certo é que, o que via, o que eu constatava era que o “Outro” era eu mesmo, mesma roupa, mesmo rosto; era eu em “duo”, cópia de mim mesmo:- Eu-me.

Como explicar o fenômeno? Podia ser uma alucinação, uma visagem, pois então? De chofre, ocorreu-me uma idéia: e se eu despertasse o Outro? Oh, que aventura! Face a mim, eu. Eu em duplo, eu em frente de mim – Eu-nos. Quem o verdadeiro, quem o falso? Uma conversa entre mim e mim? Mefistófeles não impressionaria tanto. Verdade que desde o começo a idéia do inautêntico entrara a acutilar-me a curiosidade. Uma ponta de gelo, afiada como punhal, beliscava-me a espinha sem piedade.

Eu estava na iminência de erguer a pontinha do véu do incognoscível e deparar o depois, o outro lado de que ninguém torna. Donde ninguém torna? Já agora me duvidava. Ergui-me lentamente, cosi-me à parede, olhos fixos naquele vulto. E se aqueles olhos se descerrassem de repente e me fitassem? Impossível descrever a sensação de que essa possibilidade pudesse ocorrer. Melhor que me guardasse de mim, sabia eu lá o que poderia advir daí? Sempre de frente para a figura, não me atrevia a dar costas ao estranho.

Mui de manso, arrisquei alguns passos e, oh Deus!, experimentei uma sensação de leveza de movimentos como nunca em dias de minha vida havia experimentado. Com pouco e levado por um indefinível deleite de liberdade, impulsionei o corpo testando a força de gravidade. Pela sagrada benevolência dos deuses, fugiram-me do chão os pés, eu flutuava no espaço do quarto, eu volitava, às rédeas de mim, libérrimo das amarras do corpo, eu livre, eu desatrelado do peso carnal, boi sem bufo, quase eterno.!

Foi uma revelação, uma estupefação. Eu atirava-me no estreito espaço do quarto, rindo feito um danado e não me ouvia. Não me ouvia, provavelmente nem me ouvia a mim a estranha figura de mim mesmo que continuava imóvel estirado na cama.

Senão quando, algo verdadeiramente surpreendente feriu-me a vista, algo brilhante e sutil.Entre mim e mim, ou seja, entre mim e o vulto estendia-se-nos um cordão vibrátil que nos prendia um ao outro, alguma coisa impossível de descrever.

Eu vagavaz? Eu extemporâneo? Eu incomum? Já podia entender-me. Entrei-me a excogitar:
- Com que então o ser humano, além da carcaça pesadona de ossos e vísceras ainda dispõe de um outro veículo, este mais leve, mais maleável, invisível aos olhos físicos e que talvez é quem dirige o outro, lerdo e sujeito a moléstias e perecíveis? Velhas lendas, velhas histórias, velhas verdades.

Se sim? Acerte-se nessa hipótese e um novo mundo se nos descortinará adiante, amplo e profundo.

Agora é sair ao desafio com o mundo, uma monstruosa interrogação nos olhos, referindo, questionando, um tiquinho de ironia ao canto da boca...

Antônio Russi (Professor e Escritor) - Lavras - MG - janeiro/2019.


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