Economia brasileira em 2018: estagnação e o recorde de 27,7 milhões de desocupados,
artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho
e à proteção contra o desemprego”Artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (10/12/1948).


Editado e Publicado em 18-05-18

Os economistas do mercado financeiro começaram o ano de 2018 tentando vender um cenário otimista para a economia brasileira, representado por baixa taxa de inflação, baixa taxa de juros, retomada da renda e do emprego e alto crescimento econômico (considerando que hoje em dia o voo da galinha de 3% de aumento do PIB é comemorado como um “milagre”).

Mas o pacote dourado de produtos otimistas que o mercado tentou vender não resistiu à realidade do primeiro trimestre do ano. As notícias que vieram a público nesta semana de 13 a 19 de maio traçam um quadro muito desanimador para a realidade nacional, neste ano eleitoral, sem muitas perspectivas pela frente.

PNAD - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - Divilgação IBGE:

Com a economia na UTI e uma quantidade enorme de desempregados no país, era de se esperar uma taxa de inflação baixa, como é estabelecido pela famosa “Curva de Phillips”, que relaciona alto desemprego à baixa inflação. Contudo, os preços tendem a subir no Brasil devido ao aumento do preço do petróleo (que chegou a US$ 80 o barril Brent, esta semana), à nova política de preços de combustíveis da Petrobras (o Brasil tem uma das gasolinas mais caras do mundo) e à desvalorização cambial que está impactando o Brasil (o dólar oficial atingiu R$ 3,7 e ultrapassou R$ 4 no mercado paralelo), a Argentina e diversos outros países ditos em desenvolvimento.

Com a possibilidade de aumento da inflação, o Banco Central, no dia 16/05, resolveu manter a taxa de juros Selic em 6,5% ao ano, que é a mais baixa em termos nominais, mas é muito alta em termos reais, considerando o estado anêmico da economia brasileira.

O Banco Central também divulgou (dia 16/05) o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que registrou uma baixa de 0,13% no acumulado do primeiro trimestre de 2018 na comparação com o trimestre anterior (outubro a dezembro de 2017), pela série ajustada. Isto significa que a economia brasileira está estagnada e será incapaz de crescer 3% no corrente ano, mesmo que houvesse um grande milagre.

Na quinta-feira, dia 17/05/2018, o IBGE divulgou a taxa composta de subutilização da força de trabalho que agrega os desempregados, os subocupados por insuficiência de horas e a força de trabalho potencial. O desalento, que faz parte da força de trabalho potencial, engloba as pessoas que estavam fora da força de trabalho por uma das seguintes razões: não conseguiam trabalho, ou não tinham experiência, ou eram muito jovens ou idosas, ou não encontraram trabalho na localidade – e que, se tivessem conseguido trabalho, estariam disponíveis para assumir a vaga.

Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a subutilização da força de trabalho chegou à impressionante taxa de 24,7% no 1º trimestre de 2018, o que representa ¼ da força de trabalho brasileira. Ou seja, 1 em cada 4 brasileiros estão sem o direito humano básico ao emprego, como estabelece a Declaração Universal dos Direitos Humanos (de 10/12/1948).

No total, são 27,7 milhões de pessoas “jogadas na rua da amargura do desemprego”. Esta é a taxa (24,7%) e o número (27,7 milhões) mais alto da série da PNADC, iniciada em 2012. Em alguns estados a taxa de subutilização da força de trabalho chega a 40% (como na Bahia). Isto mostra que o Brasil viveu a sua maior e mais profunda recessão da história e que está tendo a pior e mais desalentadora recuperação de todos os tempos. Pelo menos 3 milhões de brasileiros procuram emprego há 2 anos e nada encontram.

Na verdade, todos estes dados acima sobre inflação, juros, desemprego, baixo crescimento, etc. apenas confirmam que a economia brasileira está em um “beco sem saída” e o povo brasileiro já não sabe mais o que é “Ordem e Progresso”, lema que foi inscrito na bandeira nacional pela influência dos positivistas quando da Proclamação da República e que foi apropriado como lema requentado do atual governo federal.

A situação da economia brasileira é, indubitavelmente, critica. O país tem uma grande crise fiscal, uma dívida pública que está saindo totalmente do controle, baixa taxa de poupança e investimento e baixíssima produtividade dos fatores de produção. Mesmo a ótima notícia de que o Brasil vive o seu melhor momento demográfico da história e que tem uma janela de oportunidade única para dar um salto no desenvolvimento humano, não vale de nada, pois o estado da economia está jogando fora o bônus demográfico ao desperdiçar o potencial de 27,7 milhões de potenciais trabalhadores.

Para complicar ainda mais o que já está complicado, matéria do site Bloomberg (17/05/2018), com base em estudos da economista da Universidade de Harvard, Carmen Reinhart, mostra que os chamados “mercados emergentes” estão em pior situação hoje em dia do que durante a crise financeira global de 2008.

Ao invés do otimismo dos BRICS, termo inventado pelo economista Jim O’ Neill, do banco de investimento Goldman Sachs, em 2001, a moda agora é falar de “Os 5 fracos” (“the Fragile Five”), que incluem Brasil, Índia, África do Sul, Turquia e Indonésia. Sendo que a Argentina é Hors concours. Uma crise internacional neste momento só agravaria a crise brasileira.

O Brasil está em rota de declínio, possui um governo corrupto, ilegítimo e paralisado, um Congresso corrupto, caro e ineficiente, um ativismo judicial inaceitável e tem uma oposição perdida e que não sabe o que apresentar para tirar o Brasil do buraco, a não ser velhas propostas que já se comprovaram repetidamente inadequadas e insuficientes. Ou seja, a fila do desemprego vai continuar crescendo e cada vez mais pessoas vão procurar trabalho por mais tempo e o país terá mais gente insatisfeita o tempo todo.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE;

Fonte: EcoDebate


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