A LUA SÓ ESPIA

Publicado em 29-01-18
por Antônio Russi

Uma porção de estrelinhas piscavam no casacão escuro do céu, bem no cocuruto da praça. Estão sempre à escuta, a gente é que não atenta para isso. Meio da noite, o silêncio é um regalo. Só, um homenzinho deambula, um anjo pode forçar demais as pessoas à transparência, mas o nosso noctívago não percebia nada, nada, nada.

Um guarda-noturno, desses que não mais existem, o interpelou :- “Bêbedo outra vez?” E ele, voz morna, quase curvabundo, desfechou: “macacos me cocem se consigo achar a porta”! Só falou por falar, talvez por ouvir a própria voz. E foi, caminho abaixo, física e metafisicamente só, sem o guarda, todo táctil, escorando muralhas invisíveis. Passos adiante, tropeçou numa saliência qualquer, esteve quase, quase a dar consigo em terra. “Raios de buracos”! – emitiu, num solfejo. Foi quando a lua deslizou e foi meter-se entre nuvens, envergonhada do pouco brilho. “Cerre as cortinas, quero estar só!” – ciciou, acreditando-se ouvido.

Excogitou num dos bolsos do paletó. E agora? Vazia garrafa? Ainda restava um trago; entornou-o goela abaixo. Os longos dedos do sono ameaçavam derreá-lo. Nisto piou uma coruja em algum lugar. “Galo madrugador!” E pois, alguma desordem interna o despertou de todo. Forçou as pernas (só então dera de se surpreender sentado no chão, pernas abertas). A uma tentativa de se erguer, voou-lhe da cabeça o chapéu. Esteve a mirá-lo por alguns instantes, de gatas, quase iracundo : - “Você não desiste de fugir de mim, hein?” Abraçou-se, sus e truz, a um poste, juntou os pés, içou o fardo carnal, num resfolgo. Daí prosseguiu, reposto nos eixos, disposto a carregar consigo pelos espaços avante. Guinou, à deriva, cai-não-cai, deputava em si e consigo todos os poderes e haveres.

Nisto veio vindo um cachorrinho, manso e humildezinho, aconchegou-se-lhe aos pés, focinho entre patas. “Com que então o doguezinho veio também cumprimentar a noite?” O cãozinho não se mexeu, só o leque-leque da cauda. “Somos dois exilados, você da carne, eu do aconchego da cama,não?” E estendeu-lhe a garrafa vazia.

Deu-se então o inadvertido: uma das pernas imbricou-se com a outra, foi-se-lhe o equilíbrio, deu-se o homem consigo em terra. Com o que, assustou-se o cachorrinho, zarpou-se dali, rabo entre pernas. Só assim pôde mirar livremente o céu ; entreviu entre pedaços de nuvens uma fatia da lua, que fazia frincha por entre as palmas de um coqueiro: “Olhando pelo buraco da fechadura, hein?!”

Assim deixou-se estar instantes mínimos. DE novo, pós esforço e reforço, pôde reaver o equilíbrio dos ossos e mandou-se pelo meio da praça (já não se lembrava que estava numa praça). Novo tropeção: - “estarão mudando a força da gravidade?” – soprou entre dentes.

Por um desses movimentos súbitos e inexplicáveis, rodopiou sobre si mesmo dez ou vinte vezes, qual cão que intenta coçar o próprio rabo. Só que ele, instintivo, intentava pegar a tira solta do paletó. “Vejam só, não consigo me apanhar de novo!”

Já então os primeiros vislumbres da manhã. Os pássaros já algazarravam nos galhos das árvores. Não, ainda não. Apenas uns tíbios pipilos aqui e ali. E então, mais lépido, foi dali, pensou, ver as pupilas do sol.

Antônio Russi (Professor e Escritor) - Lavras - Mg - Último de dezembro/2017.


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