A SAGA FAMILIAL

Publicado em 15-05-18
por Antônio Russi

Como instituição estável e duradoura, nada existe como a família, digam o que quiserem os estudiosos do assunto, ou os solitários empedernidos. Seria instintivo ao ser humano o impulso à formação do núcleo familiar e à criação de filhos? Ou apenas um costume adquirido por necessidade e aprendizado? Estou que por ambos os motivos, se não houver outros. Agora mesmo me estou lembrando de alguns deles, e não faço nenhuma questão em pô-los à estampa:- a família como unidade de produção e consumo, como unidade de organização social, como instrumento de formação da personalidade, como veículo de transmissão cultural, como centro de formação de valores e identidades.

Veem as instituições religiosas cristãs a família como organização universal e nisso estão arvorando , penso eu, uma bandeira para o futuro quando a Humanidade puder compreender,”ab imo corde”, a mensagem de Jesus. Sem querer meter o bedelho em seara de especialistas, cito estas palavras do atual Dalai Lama: - “O ponto que se deve ter sempre em mente é que, em princípio, o objetivo da religião como um todo é tornar mais fácil o exercício do amor, da compaixão, da paciência, da tolerância, da humildade, da capacidade de perdão e de todas as outras qualidades espirituais.Se não lhe dermos importância, se deixarmos de a praticar em nossa vida diária, mudar de religião ou permanecer na nossa – ainda que sejamos fervorosos – não valerá nada. Seria fazer o mesmo que o doente grave que apenas lê tratados sobre a sua doença, mas deixa de seguir o tratamento preciso.”

A mitologia greco-romana tinha sobre isso idéias interessantes, não sei se herdadas de culturas mais antigas, mas é provável que sim, pois “nil novi sub sole”, como rezou Salomão: a velha Hélade aceitava a intromissão de deuses e deusas na família humana, formavam grupos de peferências, tinham filhos e filhas, irmãos e irmãs e havia entre eles o mesmo ciumezinho e vaidades tão próprios da mentalidade carnal.

Sem querer instigar polêmica, ponho no painel discussão antiga que alguns passadistas ainda teimam em adotar como perfeitamente válida, a de que o casamento como alicerce e apoio da estrutura familiar fora mais estável quando o processo de escolha do noivo era de exclusiva competência dos pais.

A verdade é que, mesmo insegura e algo desgastada nos dias de hoje, continua o clã familiar insubstituível. A família, pois sim, tem uma longa anterioridade e um rico manancial de aprendizado, e nada, parece-me, vai desmanchar o seu curso. Por isso, e por muito mais, desatrevo-me a vaticinar o seu fim.

Querem proverbial e fecundo exemplo do seu não-tempo? Dou-lhes então a sábia, comovente parábola do filho pródigo. Desejou o jovem afoito viver a própria vida e atrever-se no remoinho do mundo. Tornou, tempos depois, chupado e decaído, rabo ente pernas, disposto a retificar o equívoco. O pai o acolhe em festas, estava salvo.

A família é transição de olhos e retratos, há quem o afirme. A definição soou-me sem-graça, mera chalaça. Depois refleti que não, achei-lhe sentido. Nas vastas paredes dos castelos medievais enfileiram-se pinturas de figura ilustres que perpetuam feitos e nomes conferindo-lhes o selo da eternidade. Hoje mesmo, nos amplos casarões de tradição e prosápia, figurões ad ostentationem homini.

Ora, meus senhores, além do raso e mero sumiço, para que serve então o Santo Templo?

Antônio Russi (Professor e Escritor) - Lavras - Mg - dezembro/2017.


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