É DESVENDÁVEL O FUTURO?

Publicado em 09-01-18
por Antônio Russi

Ferozes homens delinqüentes – não se horrorizem! – têm lá o seu lado místico. Sempre há alguma coisa debaixo de cinzas. Frau Heelst foi dada e gabada como horoscopista de Hítler. Mas então tudo se mescla, homens, vícios e virtudes? A gente se abre e se fecha no escuro, não se estranhe. Quem não quereria, no fundo, espiar os ticos do destino? Ninguém, por inteiro se pode escorar no inflexível – não me acorde, pelo amor de Deus! Mas sabe-se lá, um dia, a corda, esticada demais, se rompe.Passado o primeiro susto, a gente se inclina, no fechar do destino, para o maleável, assim como as árvores se dobram à força do vento.

Assinale-se – e aqui faço a pergunta de todos os tempos – que é que a gente se conhece em verdade de si mesmo?

“A predição é dom, não ciência ou arte!”. Será? Estou mais inclinado a crer que é um longo e aperfeiçoado adestramento da alma através de incontáveis experiências. Dizia uma ledora de cartas a um consulente aflito que a predição vem quando vem; a hora nem sempre é boa. Só não sei se a mulher manuseava as cartas de um baralho comum ou as de um tarô. Fica a lacuna em cômputo das questões sem resposta.

Certas criaturas se servem das cartas para dar “ao mais adiante” uma espiadela e fazerem disso o seu ofício de cada dia.Não, não julgo. Julgar a quem for é sempre péssimo, mas fatos e exemplos falam alto. As cartas entre as mãos nada indicam. O que vale é o que está por dentro delas, os olhos agudos e experimentados da alma em muitas lides. Fora absurdo supor, escreveu alguém, que no estado normal a alma se acha confinada, de modo absoluto, em seu envoltório, como o caramujo em sua concha. Quando muito, podem as cartas servir às cartomantes como referência, não mais que isso. Mais intuitiva que o comum das criaturas, senão mais adestradas, lêem nas cartas ou nas mãos do consulente o que se lhe vai na alma, fatos passados e presentes, ou, se mais afinadas, recebem de alguma sábia voz invisível o que constitui objeto de suas inquirições.

As potências da alma são diversas e insuspeitáveis. Não nos assegurou o Mestre Jesus que somos deuses? “Ego dixi , Dii estis”. Criaturas dotadas de percepções clarividentes são mais comuns do que se pensa; só por descuido ou ignorância não dão acordo de si.

Aprendi que a capacidade perceptiva varia de pessoa para pessoa, entre os sensitivos, decerto. Em estado inicial, quando o processo apenas se debuxa, demonstra o sensitivo um certo tato e perspicácia em ver as coisas.Em estado um pouco mais desenvolvido, acorda-lhe certos pressentimentos. Em estado mais adiantado, começa a ver acontecimentos que mais tarde ocorrem de fato tais quais os sentiu e viu o sensitivo. A esse estado de consciência chamam ou batizaram-no de “êxtase vígil”. É o caso de Santa Teresa de Ávila, São Francisco de Assis, São Juan de La Cruz. Visitariam eles regiões paradisíacas?

Consta que sim, e eu acredito.

Existiriam explicações racionais para o transcendental? Claro que sim, mas a razão até lá não chega; donde os investigadores desses fenômenos asseverarem que se trata de uma doença nervosa ou de alucinação, como querem os médicos materialistas. Em obra estupenda de clareza e profundidade, diz o psicólogo norte-amaricano William James que deram cabo de São Paulo explicando sua visão na estrada de Damasco “como uma descarga violenta do córtex occipital, sob a alegação de que era um epiléptico”. É digno de lido e estudado o livro do dr. James, “As Variedades da Experiência Religiosa.” O chapado racionalismo não nos diz nada não elucida nada.Lá um dia, não importa quando, o homem, sobrepondo-se à fase tacanha e estreita em que ainda se demora, terá olhos mais abertos para o sutil, o transcendental.

Por ora ainda não, a vida é de ferro. É preciso que assim seja.

Antônio Russi (Professor e Escritor) - Lavras - Mg - novembro de 2017


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