EM TEMPOS DE TIQUES

Publicado em 10-04-18
por Antônio Russi

Só vagamente me ocorrera que os tiques nervosos pudessem funcionar como “tapumes energéticos”. Rara a criatura que se não deixa trair por eles, discreta ou ostensivamente. Há de haver sobre o assunto estudos sérios, por envolver de algum modo a personalidade humana, como praz à Providência.

Vou-me a uma observação de autor confiável:- “os chamados tiques nervosos nada mais são do que impulsos compulsivos de atos ou a contração repetitiva de certos músculos, desenvolvidos de forma inconsciente, para não tomarmos consciência dos conteúdos emocionais que reprimimos em nossa SOMBRA.

Sombra? Fato, ninguém gosta de expor a própria sombra, para usar um termo junguiano. Sombra, segundo ele, é o nosso lado escuro, escondido, recalcado , inexplorado – e como mete medo, Deus do Céu! Verdade, verdade, a gente está sempre fingindo, ou, quando menos, fingindo em maior ou menor intervalo, um processo de escapismo mui próprio do homem. Vez em vez, para se distrair, vai a gente farejando outras realidades - seria isso outro processo de fuga? Numa dessas escapadelas, pensando no assunto, topei com um texto do poeta português Fernando Pessoa: “Todo o estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem”.

Ora, cá eu sei também que toda paisagem esconde um espaço interior que não se vê, para lembrar-me de Sidarta, o Buda, que em tudo via a condição de impermanência das coisas.

Em matéria de tiques, há-os feios e elegantes, os que atraem e os que detraem. Depende de quem os vê. Mas no outro lado da figura humana, há os homens “certinhos”, que só agradam os também certinhos. São valores passáveis.

A verdade é que a exatidão em tudo o que se faz deve doer por fora e por dentro,como deve ocorrer aos atormentados pelo perfeccionismo. Claro que me estou referindo às obras só aparentemente perfeitas. Digamos que o verdadeiro artesão sabe que além de sua alma, outra alma além existe. Esse disfarce de atitudes acaba por enrijecer a personalidade e mecanizar os hábitos. Não raro, o artista, por incompleto, busca, através das suas limitações, o disfarce dos “tiques...”!

Aceite-se também que os tiques nervosos, se são disfarces para represar sensações e emoções desagradáveis, constituem também lições de comedimento e cautela contra possíveis outros tipos de excessos talvez mais perniciosos.

Há quem pense – Maquiavel, entre outros – que a vida ou arte de viver deve ser apenas tática. Imagine o senhor armando estratégias sobre estratégias, e vivendo em função disso, para maquinar esparrelas ao seu inimigo!.

Reconheça-se cada um simples e frágil criatura, sujeita a equívocos, mas sem laivos de pessimismo ou desvalia. Permite o Pai Supremo que o erro integre o nosso roteiro de vida por ser uma forma de corrigenda. Não sei se exagero aconselhando que em vez de repelirmos os erros e deficiências melhor fora que nos analisássemos por fora e por dentro. É divertido e vale a pena.

Antônio Russi (Professor e Escritor) - Lavras - Mg - março/2018.


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