JOSÉ JOÃO : JOÃO JOSÉ

Publicado em 01-06-18
por Antônio Russi

Então, pois, ia lavrar-se mais um caso de amor nas escrituras dos homens. José João e João José, dois amigos de longos e provados caminhos. Desde meninos se conheciam; agora estavam homens feitos, solteiros e em vésperas de quantas expectativas. Amigos de engalfinharem-se um no outro, como cogumelos à árvore. Amigos, sim, de se folgarem em regabofes,inseparáveis como duas metades de um mesmo fruto.

Vai, um dia, o coração de José João conheceu o amor e amoleceu. Foi só no risquinho da ocasião, quase o deslumbramento. José João refez-se outro, um estado íntimo tão diferente do que sentia pelo amigo. O coração, sentia-o descarrilar-se, fora de prumo, ele flutuava.

Só que, na horinha de consciência, pensou no amigo, João José. Trancou-se mais fundo, engasgando o instante. “Não, não, nem ele deve saber!”, mordeu-lhe uma pontinha do coração. “Acaso não mereço eu esta felicidade, só minha? Por que tenho de reparti-la?

Guardava-se de futura possível tempestade, procurando exilar-se de si. Mas um vermezinho de remorso mordeu-lhe alguma coisa por dentro: - “preciso pensar, preciso pensar”, foi o que disse, e enxotou de si a ideiazinha incômoda.

Mas ela voltou e beliscou-lhe outra vez os intestinos. “Como podia pensar em mentir ao amigo?”

“Que fiz, que faço, que farei?” - Sobrevieram lembranças, inseparáveis ambos, nenhuma rusga, o tempo não se atrevera a separá-los; agora uma ignóbil figura aparecera entre os dois. “Não, uma nobre figura, quero dizer.” Eurídice. Não, não podia mentir ao amigo, nunca, tresjurou-se. Pensou em ir ter com ele, já, já, atirar-se- lhe aos braços, justificar-se, confessar que o amor veio de chofre, a atração de um simples olhar arrebatou-o, não pudera resguardar-se, quando dera acordo de si já era tarde; estava vencido...

Foi. Saiu debaixo da noite, lesto, fiando-se mais aliviado, dizendo-se e repetindo-se:

“Sou lá algum Caifás?”

A casa de João José era logo ali, dois ou três quarteirões.

À medida que se aproximava da casa, o coração se lhe ia aos pinotes – “como contar-lhe a novidade, como ele a receberia? Surgiu-lhe em retrato vivo na imaginação a figura do amigo, senão de si não gostava mais de ninguém, queria-se exclusivo, corpo e alma, o amor inadmite um terceiro pé no estribo. Conhecia-lhe de sobejo a posse de exclusivista. Ele próprio, José João, se a situação fosse ao revés, ele com certeza não toleraria a intrusão, não, nunca. Esse pensamento riscou-lhe rápido o cérebro, ele freou os passos, já estava próximo da casa. Pensou recuar, fugir, haveria ocasião outra. Já se encontrava defronte da casa, um amplo jardim a rodeava,conhecia-a bem.

Nisto, ouviu vozes. Duas pessoas pareciam conversar. Uma delas reconheceu-a depressa; era a de João José, alguém lhe respondia. Aproximou-se mais do local de onde parecia vir as vozes. Quis mais uma vez recuar. O coração tão de repente adivinhasse? O coração desta vez parecia romper-lhe o peito. Aproximou-se do murinho que guardava o jardim, suspendeu-se na pontinha dos pés, o murinho dava-lhe na testa. Entornou para o interior os olhos. Viu, reconheceu, à luz da lua, o amigo e uma mulher jovem, juntos, agarrados um no outro, embebidos nas teias do amor, os olhos frechavam brasas .. Era Eurídice....

Antônio Russi (Professor e Escritor) - Lavras - Mg - fevereiro/2018.


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