O PERSONALISTA

Publicado em 27-02-18
por Antônio Russi

Fingimos aparente firmeza só quando nos escondemos de nós mesmos, mero e triste disfarce com que nos apresentamos no palco da vida. Assim é, e não devera ser assim.

Atente o amigo para o Personalista, que busca em si os recursos de que precisa para viver e conviver entre os homens. Porque, digamos depressa, o personalista é um incorrigível inconformado. De tão egocêntrico, ele se coleciona, como declarou não me lembra quem.Mais das vezes, ou todas as vezes, não sabe disso. Exagero adiado, seria tal atitude até elogiável se ela se limitasse tão só à autoafirmação. A autoafirmação em certos casos é uma necessidade moral. Afinal, todos precisamos, vez por outra, de um bom safanão em nossas íntimas disposições quando nos sentimos esmorecer.

O personalista, temos de conferir-lhe, embora a contragosto, foros de cidadania nestes nossos tempos de convencionalismo. Os olhos, insubmissos, jamais se abaixam. SE o fizessem, desmentiriam a própria condição que ostenta. Essa deformação moral é sua bandeira travestida de firmeza e verdade.

Ouço dizer a alguns moralistas que o personalismo é a lupa do orgulho centrada no Ego. E é verdade. Imagine-se uma noite escura, alguém traz uma pequena lanterna para alumiar o caminho, espinhoso e denso. Ele só vê o foco de luz para se orientar. A luz de que dispõe é insuficiente para uma visão segura e global e remover o ambiente de sombras em que se encontra.

Claro que a gente precisa cultivar a aquisição de valor pessoal, nosso perímetro sagrado de identidade. Mas sem os acintes de exagero, confira-se. Entanto, o personalista para si mesmo é anônimo. Nele o “Eu” está sempre em nível de trampolim. A presença de um rival ameaça-lhe a posição. Não admite concorrência e odeia com todas as suas vísceras quem ousa disputar-lhe o “prestígio” social de que desfruta.

O apego irredutível às próprias idéias, que julga irrefutáveis, torna por vezes mui dificultoso um princípio de convivência com os oponentes. Dialogar, dividir intercambiar idéias é coisa que lhe não passa pela cabeça, a não ser quando “sente” que domina o grupo. Pois se assim é, como sentir-lhe sem desconfiança uma mínima aproximação? Como palpar-lhe a sinceridade se ele próprio traz sempre na algibeira uma receita de viver? Eu cá comigo, sem indultos de segundas intenções, sem foco de malícias, ainda adjunto: um indivíduo desse tipo, pojando-se numa cerrada fatura de si mesmo, falece-lhe (querem saber?) o mínimo sentido de caridade para com o próximo.

Vá lá, cedo-lhe algum mérito: - até que gostam dele os incautos. Recebem-no festivamente em certos meios, dão-lhe palmas, querem ouvi-lo, isto em momentos de descontração. Invejam-lhe a ousadia, talvez no fundo quereriam ser como ele.

Como lá diz o outro – o homem é uma catarata de surpresas.

Acrescento, e isto está claro, que o personalista não gosta de ouvir.Quem ouve parece colocar-se em segundo plano, e o personalista inadmite estar em posição desvantajosa. Entanto, saber ouvir é uma arte e poucos a praticam.

Eis, enfim, assim como quem diz, - o pecado de nascer na tese anaxinândrica. Mas deixemos sossegados os antigos.

Antônio Russi (Professor e Escritor) - Lavras - Mg - janeiro/2018.


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