SABEIS POR QUE CHORAM OS OLHOS...?

Publicado em 02-01-18
por Antônio Russi

“Porque vêem” - responderia o célebre clássico português, padre Antônio Vieira, século 18, em um dos seus sermões. Ora, inventou o engenho humano o telescópio para examinar distâncias inconcebíveis, e o microscópio para perquirir o universo do infinitamente pequeno. Mas não cuidou o homem de ver-se a si mesmo.

Os lamentáveis enganos dos sentimentos, os pontos de vista pessoais, as opiniões preconcebidas, as paixões devastadoras, os laços enfermiços, as concepções estratificadas, os propósitos menos dignos, a imaginação intoxicada e os hábitos perniciosos representam fardos enormes que constrangem o ser humano ser como é, um eterno ignorante de si mesmo, de sua essência.

A luta mais árdua que o homem tem de enfrentar é a que trava consigo mesmo . Por que, em vez de percorrer os espaços imaginários, cuide-se em auscultar o próprio interior e faça disso um exercício diário. Quem sou eu? – a interminável questão. Todos somos amnésicos, pois não. O passado, o que trazemos dentro de nós, é cinza e luz, redescubra-te através de mil peripécias do movediço eu.

Sabe-se que na antiga Grécia havia a inscrição na porta de entrada do Templo de Delfos, onde se lia : - “Homem, conhece-te a ti mesmo!. O que poucos sabem é que no verso do portal, do lado de dentro do Templo, lia-se ainda : - “E conhecerás o Universo”. Mas só os Iniciados tinham acesso ao que ali se ensinava.

Enquanto examinava o assunto, lembrou-me compulsar o Evangelho apócrifo de Tomé, redescoberto entre os textos da biblioteca de Nag Hamadi e lá estão registradas estas palavras que o apóstolo atribui a Jesus: -
“Quem conhece o todo, mas priva-se do conhecimento do verdadeiro Eu, estará também privado do todo.”!

Assim pois mal interpretando, quem se conhece, conhece também o que se lhe passa à volta. Não se pense que um tal conhecimento seja apenas uma simples percepção intelectiva, mas algo infinitamente mais profundo. A isso costumam chamar os estudiosos de “Consciência Cósmica”, uma forma de identificação com o Todo, ou nele imerso em subastância.

Santa Teresa de Ávila, a santa de infinitos recursos literários, século 16, sem que tivesse do assunto conhecimento intelectivo, devia sentir-se assim, cosmicamente assim, nestes versos : -
“Alma, tens que procurar-te em mim, e a mim hás de procurar-te em ti”. Ninguém resumiria tão profundamente a própria essência de si mesmo.

Sentiria o seráfico Francisco de Assis essa mesma consciência cósmica? Tenho para mim que sim, como mostram alguns aspectos de sua vida.

E o Messias tão ansiosamente aguardado, quando veio poucos o reconheceram. Sabe o senhor o que o profeta Isaías predisse do Messias? Que no tempo do Messias, os montes se humilhariam, e se encheriam de vales. Vaticinou mais o profeta : que no tempo do Messias viveriam os lobos em harmonia com os cordeiros, que o leão e o boi se sustentariam do mesmo alimento. Se os lobos, digo eu, não fossem tão sagazes em despintar a pele, certamente que se poderia cumprir a profecia.

Mas ela há de cumprir-se, quando os homens se conhecerem mais, quando, principalmente, se autoexaminarem em profundidade.

Vós quem sois? Tu quis es? Quid dicis de te ipso? Vós quem sois? Que dizeis de vós mesmo?

A vida, meu senhor, é dádiva feérica.

Antônio Russi (Professor e Escritor) - Lavras - Mg - outubro de 2017


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