“SOMBRAS” QUE FICAM...

Editado e Publicado em 10-07-18
por Antônio Russi


Autor: Antônio Russi

Devo ainda falar da “Sombra”? Creio que sim, talvez para despertar-nos a consciência de ainda nos sentirmos fortemente envolvidos por ela. Ouvi outro dia, da boca loquaz de um orador: - “desgraçados destes nossos tempos em que uma minoria de loucos guia uma maioria de cegos.” A dizer verdade, cegueira e loucura se equilibram e se distribuem em cotas iguais de um lado e de outro. Ou o amigo, sempre tão atilado, ainda não tomou pulso à situação?

Sombra, o que é “sombra”? Já algumas vezes tenho dito que a expressão vem de Jung, psicólogo suíço e significa o que trazemos de ruim, de negativo dentro de nós e procuramos ocultar aos olhos alheios. Bem sei que muitos não queremos ouvir sequer o som da palavra, muito menos apreender-nos o significado. Mas ela aí está, faz parte do nosso dia a dia, rói-nos as entranhas, subjuga-nos, tememo-la como o diabo teme a cruz.

Revelemo-la, sim, e depressa, a ver se nos despojamos de um peso incômodo. Faz alguns dias deparou-se-me em um livro uma palavra da língua alemã – “Bestimmung” que corresponde em português ao sentido de “obstinação”, “determinação”, “designação”, “chamamento”. Não me sentindo diferente de ninguém, poderia, sim senhor, aplicar ao meu caso o sentido dessa palavra, uma espécie de sina que conduziria os passos de minha vida ou como os deveria conduzir. Sentir-me-ia, quem sabe? menos oprimido pela Sombra.

Vá notando o amigo que eu estou tentando, por meios ao meu alcance, libertar-me dessa ameaça, e para tanto me valho de tudo. Digamos que seja isso uma espécie de destino, como quer significar a palavra alemã? Ou eu estaria, sem o perceber, enganando-me a mim mesmo, fugindo de um problema a que buscava combater de frente e de perfil? Um poço de mistério, o homem, sim senhor. A gente nunca encontra o fundo.

Não faz muito tempo colhi numa das obras de Shakespeare, creio que em King Lear, este símile notável: “absurdo há de parecer ao mundo quando os avarentos contarem dinheiro à luz do dia.” A mim parece-me mais absurdo quando chegar o dia de o homem aceitar-se a si mesmo como realmente é. Eu, de mim, sempre tento uma solução ou alguma coisa que busque uma nova rota. Um desses caminhos seria o estudo sistemático da ciência da alma. Sei que o tentame é como entrar na boca de um labirinto sem esperança de retorno. “Todos os que vão atrás do próprio nariz são guiados pelos próprios olhos, exceto os cegos.”

E por que não começar pelo maior dos Mestres? Pedro e outros discípulos estavam à mesa com Jesus. Declarou Pedro, sem ter mão de sua Sombra, que se fosse necessário daria a vida pelo Cristo. O Divino Mensageiro mirou-o profundamente nos olhos e retorquiu que por três vezes Pedro o haveria de negar naquela mesma noite.

Mas então? Atente-se para a diferença de posição entre Pedro e o Nazareno. Pedro jurou pelo que ignorava de si e o Cristo pelo que conhecia de Pedro. Tenho cá comigo um escrúpulo que não se aquieta. Como pôde o Cristo saber que Pedro o negaria, e ainda por três vezes? É próprio das almas excelsas saber o que vai por trás das nossas intenções.

E assim somos quase todos, ignorantes de nós mesmos. Os velhos gregos é que estavam certos. “Homem, conhece-te a ti mesmo”, o dístico estampava-se, claro e severo, no frontispício do Templo de Delfos, para conhecimento de todos. Mas o que nem todos sabiam, e apenas uns poucos tinham acesso, é que no interior do Templo completava-se a frase – “e conhecerás o Universo...”

Antônio Russi (Professor e Escritor) - Lavras - Mg - maio/2018.


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