Surto de sarampo somente será bloqueado com vacinação.
Especialista fala sobre importância da vacinação diante do aumento do número de casos confirmados da doença no Brasil.

Editado/publicado em 20/07/18

O ano mal havia começado e uma notícia já chamava a atenção. Em meados de fevereiro, o estado de Roraima notificava ao Ministério da Saúde (MS) a suspeita de um caso de sarampo em uma criança venezuelana, de um ano de idade, não vacinada, que apresentava febre, manchas avermelhadas pelo corpo, tosse, coriza e conjuntivite. Pouco tempo após a suspeita ter sido confirmada por análise laboratorial, a doença se espalhara pelo estado: os dados do MS mostram que, até 17 de julho, já são 414 notificações, sendo 216 confirmações. Outros 160 casos permanecem em investigação.

Mas não parou por aí. De natureza viral, grave e extremamente contagiosa, a doença chegou ao Amazonas, que já contabiliza 3.120 notificações, sendo 444 confirmações e 2.529 em investigação. Rondônia, com uma confirmação, também começa a ver sua população atingida pela doença, que não tinha registro no estado desde 1999. Casos também estão sendo reportados nas regiões Sul e Sudeste, a quilômetros de distância das notificações iniciais. Até o momento, o estado do Rio de Janeiro registra sete confirmações. São Paulo apresenta uma confirmação. E, ainda, 10 casos foram confirmados no Rio Grande do Sul, em uma criança não vacinada com histórico de deslocamento para um país endêmico na Europa.

“O vírus do sarampo apresenta alta capacidade de propagação. É praticamente certo que todas as pessoas não imunizadas que entrem em contato com o patógeno serão infectadas”, enfatiza a pesquisadora Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratório e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). A transmissão ocorre de pessoa a pessoa, por meio de secreções respiratórias, ao tossir ou espirrar, por exemplo, no período de quatro dias antes do aparecimento das manchas avermelhadas até quatro dias após.

O Laboratório chefiado por Marilda é referência nacional para o Ministério da Saúde e regional para a Organização Mundial da Saúde (OMS) no diagnóstico laboratorial do agravo. O Laboratório atua na confirmação dos casos suspeitos e realiza análise filogenética dos microrganismos, que permite identificar a origem dos vírus. Em março, promoveu treinamento para profissionais de 14 estados brasileiros, como medida para o controle dos casos detectados no Norte do país.

Campanha nacional de vacinação

Para barrar o alastramento do microrganismo a estratégia é simples: vacinação. Conhecido como ‘tríplice viral’ – uma vez que protege contra sarampo, caxumba e rubéola -, o imunizante é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e deve ter a primeira dose administrada aos 12 meses de idade, com reforço aos 15 meses – nesse momento, é adicionada a proteção contra catapora.

De 6 a 31 de agosto será realizada a campanha nacional de vacinação, havendo uma grande mobilização de imunização no sábado, 18 de agosto – a Fiocruz será um dos pontos de vacinação, que também incluirá proteção contra a poliomielite. O público-alvo desta estratégia são as crianças de 1 ano a menores de 5 anos. “Este surto de sarampo somente será bloqueado com vacinação”, ressalta Marilda. “Não podemos perder a luta contra essa doença considerada eliminada das Américas desde 2016”, completa. A especialista se refere ao certificado de eliminação da circulação do vírus do sarampo concedido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Foi a primeira vez na história que uma região no mundo recebia a certificação de eliminação da doença que, nos casos graves, pode causar pneumonia, cegueira, encefalite, diarreia intensa e infecções do ouvido, sobretudo em crianças com problemas de nutrição e pacientes imunodeprimidos.

Em relação à poliomielite, o virologista Edson Elias, chefe do Laboratório de Enterovírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), salienta que é fundamental que todos os países, não somente os do continente americano, permaneçam empenhados em manter a cobertura vacinal de suas populações acima dos 95%, seguindo o protocolo estabelecido pela Organização Mundial da Saúde. “Se a cobertura vacinal for deficitária, as linhagens selvagens podem ser reintroduzidas em países que já haviam eliminado o vírus”, explica o especialista. Países da África e da Ásia, por exemplo, ainda não conseguiram eliminar a poliomielite de seus territórios e podem exportar o poliovírus selvagem para outras regiões antes considerados livres da doença, como é o caso das Américas, em especial, do Brasil. O Laboratório chefiado por Edson atua como referência nacional no tema junto ao Ministério da Saúde e como referência para a região das Américas junto à OMS.

Não vacinar é crime

Os pesquisadores lembram que há quase três décadas, a Lei nº 8.069, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, torna obrigatória a vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias. “É um crime os pais privarem seus filhos do acesso à saúde. A recomendação número um é que todos os responsáveis verifiquem a caderneta de vacinação de seus filhos e os levem para tomar a dose ou as doses das vacinas que faltam”, comenta Edson. “Além disso, caso os pais não tenham se vacinado anteriormente contra o sarampo, por exemplo, que também se imunizem”, alerta Marilda. Segundo o Ministério da Saúde, a vacinação contra o sarampo em adultos é recomendada para pessoas com até 49 anos. A partir dessa idade, a vacinação deve ser avaliada por um médico. A vacina não é indicada para pessoas com suspeita de sarampo, gestantes, crianças com menos de 6 meses de idade e imunocomprometidos.

E ainda de acordo com o decreto nº 78.231, de 1976, é dever de todo cidadão submeter-se e os menores dos quais tenha a guarda ou responsabilidade, às vacinações obrigatórias definidas pelo Ministério da Saúde. “A vacinação é importante porque ela não beneficia somente o imunizado. Com a diminuição da circulação de vírus e bactérias que causam doenças, toda a população é beneficiada. É mais qualidade de vida para todos”, completa a virologista.

Fonte: IOC/Fiocruz


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